A história do tiro no Brasil

Assim como na maioria dos demais países, o tiro esportivo no Brasil era quase exclusividade dos militares. Elevado à categoria de esporte no início do século XX, na época do “boom esportivo” no país, cuja finalidade era aproximar o Brasil dos hábitos e costumes ditos civilizados na Europa, a modalidade era disputada entre os militares de alta patente, como tenentes, majores, coronéis e até generais.

O Estado do Paraná era uma exceção. Durante as duas primeiras décadas do século XX, o tiro esportivo era um esporte de grande popularidade, dividindo com o turfe a coluna esportiva dos jornais e diários da época. Explica-se o provável motivo: enquanto nos grandes centros o remo era muito popular, em virtude das condições propícias do país – as praias cariocas, o Rio Tietê em São Paulo e as lagoas em Porto Alegre, entre vários outros exemplos –, em Curitiba não existiam locais apropriados para essa modalidade. Em virtude disso, na capital paranaense, os clubes civis surgiram em considerável número, tornando o tiro, por alguns anos, o esporte preferido, até que gradativamente foi perdendo espaço para o futebol.

Mesmo não sendo uma modalidade muito conhecida entre os brasileiros, o tiro esportivo tem uma significativa presença na história olímpica brasileira, já que nos deu as primeiras medalhas. Além disso, há o mito que se criou em torno da participação dos atletas brasileiros nas Olimpíadas da Antuérpia. Segundo relatos controversos e fontes manipuladas para enaltecer os resultados, a história é a seguinte: quando a equipe brasileira, composta por Guilherme Paraense, Sebastião Wolf, Dario Barbosa, Fernando Soledade e Afrânio da Costa, partiu rumo à Antuérpia, em 1920, não imaginava a série de percalços que enfrentaria. Além do efeito negativo da longa viagem de navio, que afetou o equilíbrio dos atletas, a maioria das armas, conforme relato oficial dos participantes, havia sido furtada no embarque e as que sobraram tinham sido danificadas durante o transporte. Entretanto, para alguns jornais da época, os atletas se esqueceram de embarcar seus equipamentos e, não querendo ser ridicularizados, inventaram a história do furto. Chegando à Bélgica, os atletas não sabiam se sequer teriam a oportunidade de participar. Conseguiram: a equipe americana, muito prestativa, emprestou aos brasileiros as suas armas reservas. Diz o relato que alguns brasileiros chegaram a acreditar que elas foram descalibradas, com a finalidade de expor nossos atletas a mais uma situação constrangedora. Nada disso. Eles competiram e obtiveram ótimos resultados: bronze na pistola livre por equipes, prata com Afrânio Coutinho na pistola livre e o expressivo ouro de Guilherme Paraense na pistola de tiro rápido, deixando, obviamente, o próprio atleta americano que lhe cedeu o armamento para trás. Guilherme atingiu a impressionante marca para a época de 274 pontos dentre 300 possíveis.

Mesmo com esse expressivo resultado, o tiro esportivo não se desenvolveu a contento no Brasil. Prova disso é que, na Olimpíada de Sydney, em 2000, o país não enviou nenhum representante na modalidade. No contexto Pan-Americano, o Brasil apresenta melhores resultados, competindo por medalhas lado a lado com países como Argentina, Cuba, Canadá e EUA.