A História do vôlei de praia

O voleibol já era uma modalidade difundida em todo o mundo pela ACM (Associação Cristã de Moços) – como era chamada, no Brasil, a YMCA americana –, quando foi transposto das quadras para a areia. Isso ocorreu na década de 1930, quando alguns praticantes californianos resolveram, em virtude das altas temperaturas no verão, jogar o voleibol ao ar livre, nas areias próximas às praias.

Ainda na década de 30, o voleibol na areia ganhou como adeptos os soldados americanos, tornando-se uma das modalidades de sua preferência. O motivo era simples: ele podia ser praticado em qualquer terreno plano, necessitando de um pequeno espaço, se comparado com o de outros esportes, e poucos equipamentos – a rede (ou corda) e a bola são os únicos imprescindíveis.

Depois dos EUA, o Brasil foi o segundo país em que o vôlei de praia se difundiu. Não se sabe exatamente como foi ganhando espaço, mas rapidamente tornou-se o novo modismo nas praias cariocas e paulistas. Na década de 1950, já era tão conhecido que alguns torneios foram realizados nas praias de Copacabana e Ipanema, no Rio de Janeiro.

Mesmo se tornando uma das práticas lúdico-competitivas mais praticadas nas praias de todo o Ocidente – perdendo em popularidade somente para o frisby –, o voleibol de areia não conseguiu se instituir como modalidade esportiva até a década de 1970. Apenas em 1976 realizou-se o primeiro torneio com premiações em dinheiro. Era o início da profissionalização dos atletas, fator importantíssimo para a constituição do esporte moderno. O local desse torneio era o mesmo onde a modalidade surgiu: a praia de Long Beach, na Califórnia.

Quando a modalidade na areia começou a disputar espaço com o voleibol de quadra, criou-se uma associação somente para ela: a Association of Volleyball Professionals (AVP). Uma das principais diferenças nas regras da AVP é o número de atletas por equipe: dois ou quatro. O vôlei 4×4 não alcançou grande popularidade fora dos EUA, mas as disputas de dupla são um sucesso. A diminuição do número de atletas em comparação ao voleibol de quadra foi fundamental, pois imprimiu mais dinâmica ao esporte.

O Brasil teve uma participação importantíssima na transformação do jogo lúdico tão popular nas praias em esporte olímpico. O marco foi um torneio chamado de Hollywood Volley, realizado no ano de 1986 em duas das principais cidades litorâneas brasileiras, Santos e Rio de Janeiro. Nota-se que, na época, ainda era permitido o patrocínio de marcas de cigarro. As empresas de tabaco investiam muito nesse tipo de espetáculo para tentar associar o hábito de fumar, que, em princípio, é prejudicial à saúde, a atividades saudáveis e predominantemente ligadas a valores jovens: a performance, a vitória, a praia, o corpo em evidência, entre outros.

O torneio foi transmitido ao vivo em rede de televisão aberta. Tornou-se um verdadeiro sucesso, pois os atletas convidados eram os destaques do voleibol de quadra, portanto já conhecidos da população brasileira. Eles enfrentavam atletas americanos que, na maioria das vezes, levavam vantagem, pois treinavam profissionalmente na areia, enquanto os brasileiros se reuniam às vésperas da disputa.

Em virtude dessa repercussão positiva, a Federação Internacional de Vôlei (FIVB) criou regras específicas para uniformizar todos os torneios nos vários países onde existiam praticantes. Logo seria marcado também o primeiro mundial, disputado nas areias de Ipanema, apenas um ano depois, em 1987. Novamente a ampla aceitação e divulgação no âmbito internacional levaram a FIVB a transformar o campeonato de Ipanema em apenas uma das várias etapas a serem disputadas em praias do mundo todo. Surgia, assim, em 1989, o circuito mundial masculino. Em 1992 seriam realizadas as primeiras competições femininas. Logo, em 1994, seria criado o circuito mundial para elas, que em apenas alguns anos alcançou destaque parelho ao do circuito masculino.

Até 1993, a hegemonia no vôlei de praia foi americana – vale lembrar que, por um bom tempo, os atletas brasileiros eram os mesmos da quadra, que jogavam no seu período de férias – até que começou a surgir a primeira geração de especialistas no Brasil. Eram atletas de todo o país que aderiam ao terceiro boom esportivo (o primeiro ocorreu na virada do século XIX para o XX, com a chegada dos esportes do movimento esportivo inglês, como remo, ciclismo, futebol, e o segundo, a partir da década de 60, com a popularização de alguns esportes de origem americana, especificamente o basquete e o voleibol).

Os dirigentes do COI, sempre atentos ao desenvolvimento do esporte mundial, logo perceberam que a modalidade derivada do voleibol de quadra tinha um futuro promissor. Em 1993, Juan Antonio Samaranch, presidente da entidade-mor dos esportes, esteve no Rio de Janeiro para acompanhar a etapa mais conhecida do circuito mundial. Gostou tanto que o vôlei de praia seria confirmado como esporte oficial a partir dos Jogos de Atlanta, em 1996. Uma edição antes, em Barcelona, já havia participado como esporte de exibição (sem contabilizar medalhas no quadro geral por países).

Assim, pode-se concluir que a modalidade é um verdadeiro fenômeno, pois em apenas uma década de existência passou de um reles jogo de entretenimento a esporte olímpico de ampla aceitação mundial. Existe ainda uma supremacia de brasileiros e americanos que, por enquanto, ainda são quase imbatíveis. Mas alguns países começam a ganhar esparsamente etapas e até títulos mundiais. Destacam-se, entre eles, Argentina, Cuba, Austrália, Alemanha, Itália e Canadá, tanto no masculino quanto no feminino.