Adaptação dos clássicos para jovens e crianças

Crédito: ©iStockphoto/smartstock

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Por Cátia Toledo

As propostas de adaptação dos clássicos para jovens e crianças são antigas. Monteiro Lobato, em 1936, a partir do Dom Quixote, de Cervantes, criou o Dom Quixote das Crianças, em que Dona Benta conta para as personagens do Sítio do Picapau Amarelo a história do Cavaleiro da Triste Figura.

A série Descobrindo os Clássicos, da editora Ática, traz autores, como Moacir Scliar, que criam histórias em torno dos clássicos, tanto estrangeiros como brasileiros. É o caso de O mistério da casa verde, em que o conto de Machado de Assis, O alienista, é retomado. Trechos da obra machadiana são apresentados, ao lado de explicações sobre aquilo que o jovem não entende, como o vocabulário, a referência a outras obras e explicações sobre a época em que a obra foi escrita, que permitirão ao jovem a compreensão da história, sem que o texto original seja abandonado.

Simplificação da linguagem das obras de Machado de Assis

Em 2014, a proposta da escritora Patrícia Secco de adaptar a linguagem das obras de Machado de Assis gerou polêmica. O projeto da escritora visa a “facilitar” a linguagem ao substituir expressões mais rebuscadas.

O que a escritora pretende fazer é diferente do que fizeram Lobato e a Ática: é transformar o texto machadiano em um texto simples, de modo que não apresente dificuldades para o leitor, tirando dele o que o tornou um clássico, porque ao simplificar o texto, o estilo machadiano, a forma como Machado escrevia e que o consagrou, também desaparecerá.

A dificuldade de leitura do texto machadiano não se resume ao vocabulário, tem a ver com a forma como ele conta a história, com as inúmeras referências que faz a outros textos. Se tudo isso for retirado do texto em nome da simplificação, o que restará?

Ler uma adaptação de Machado de Assis não é ler Machado de Assis. E o que significa isso? Que os jovens de hoje são incapazes de ler um texto que apresente alguma dificuldade? Que não estão sendo formados leitores capazes de ler Machado de Assis na sua forma original?

Machado de Assis e a formação de leitores

A adaptação sugere que ler Machado de Assis é difícil, por isso só é possível adaptando sua obra para leitura dos jovens. Simplificar a obra é negar ao leitor o direito de aprender a ler esse texto.

A facilitação forma leitores de segunda classe, incapazes de ler textos mais complexos. É isso que desejamos? Ou queremos leitores eficazes, capazes de compreender qualquer texto e não apenas leituras superficiais?

Ler uma adaptação é como ver o filme escrito a partir da obra literária: o filme não substitui a leitura do livro.

Mas o que os jovens estão lendo? O vídeo a seguir mostra qual é a preferência de leitura desse público.