Cuidado: você pode estar sendo espionado!

Em 2013, foram inúmeras as denúncias de invasão de privacidade e espionagem virtual. Grandes empresas do ramo de Internet foram denunciadas por vasculhar e-mails de seus clientes, o que colocou em cheque a real privacidade de correios eletrônicos, além de trazer à tona a espionagem virtual praticada por essas empresas. Até a presidenta Dilma Rousseff, e uma das maiores empresas do País, a Petrobras, teriam sido vítimas de espionagem virtual.

Entretanto, o que muitos de nós não consideram é que esse tipo de “vigilância” é praticada sobre assíduos usuários de Internet em uma escala global; e ainda conta com a ampla adesão das pessoas, participantes de redes sociais como Facebook, Instagram, Twitter, Orkut e muitas outras.

É absolutamente comum o acesso diário (e em inúmeras vezes) a essas redes sociais, nas quais as pessoas postam e acessam dados pessoais como nível de instrução, localidade onde se reside, trabalha e/ou estuda, nome completo, telefones e e-mails de contato, entre muitas outras informações.

Tornou-se uma tendência comportamental postar e compartilhar com milhares de usuários imagens de toda atividade que se desenvolve: “#lavandoalouça!” “#horadedormir!” “#naacademia!” “#comprandopão” ou qualquer outra banalidade. Crédito: Pressmaster / Shutterstock photos.

Tornou-se uma tendência comportamental postar e compartilhar com milhares de usuários imagens de toda atividade que se desenvolve: “#lavandoalouça!” “#horadedormir!” “#naacademia!” “#comprandopão” ou qualquer outra banalidade. Crédito: Pressmaster / Shutterstock photos.

Coloca-se à disposição de qualquer olhar curioso inúmeras fotos pessoais e dos indivíduos com quem se convive, sem se pesar o risco que é oferecido a essas pessoas e a si mesmo, ao compartilhar tantas informações em um ambiente virtual. Ao acessar essas redes, é possível rastrear onde você se encontra naquele momento e, com a sua colaboração, o que faz naquele instante.

Mas o que a maior parte das pessoas também não sabe é que esse tipo de conduta irrefletida alimenta inúmeros bancos de dados que realizam um verdadeiro mapeamento do perfil de seus usuários, classificando-os segundo faixa etária, grau de instrução, preferências e interesses, etc; informações essas, bastante valiosas para empresas de marketing e propaganda. Munidos desses dados, são encaminhados aos usuários banners e informes publicitários que levem em consideração essas preferências, mas que também possam incutir e perpetuar novas tendências e comportamentos.

Toda essa vigilância propiciada por essas novas formas de comunicação e interação virtual remete-nos a um Panóptico global. Panópticos são edifícios em formato circular que permitem a ampla vigilância dos indivíduos sem que esses percebam que são vigiados, por isso recebe esse nome (pan = tudo, total / óptico = visão).

Esse tipo de estrutura foi idealizada pelo filósofo utilitarista Jeremy Bentham, no fim do século XVIII e foi amplamente utilizada no projeto de presídios em diversos países do mundo.

Para saber mais sobre o Panóptico, acesse o nosso infográfico clicando aqui.

Planta estrutural, em elevação e em seção do presídio Panóptico, projetado por Jeremy Bentham, no final do século XVIII. Crédito: Elina Hirano – POSITIVO INFORMÁTICA / TE.

Planta estrutural, em elevação e em seção do presídio Panóptico, projetado por Jeremy Bentham, no final do século XVIII. Crédito: Elina Hirano – POSITIVO INFORMÁTICA / TE.

Ao investigar as formas de domínio social e poder, Michel Foucault observou que a sociedade moderna desenvolveu mecanismos e dispositivos de vigilância por meio dos quais se obteriam dados utilizados para balizar a conduta dos indivíduos. O Panóptico seria um desses mecanismos. Esse tipo de estrutura, assim como as nossas atuais redes sociais, além de possibilitar a coleta de informações das pessoas, permitiria incutir nelas determinados comportamentos, considerados “normais”.

Ao operar tal qual Panópticos globais, as redes sociais configuram-se num poderoso instrumento, que pode ser utilizado com vistas a fins mercadológicos, ideológicos e políticos.

Evidentemente, a comunicação instantânea e contato permanente entre diferentes pessoas possibilita inúmeras coisas proveitosas, como o conhecimento de diferentes culturas, a troca de informações, etc. Desde a Primavera Árabe, vem se tornando cada vez mais comum protestos e movimentos sociais articulados por meio dessas mídias, o que em certo sentido democratizou os meios de comunicação e informação. Mas as redes sociais também induzem a um comportamento de massa, introduzindo valores e posicionamentos que são veiculados e multiplicados pelas pessoas.

Deste modo, é necessário cautela quanto ao uso que se faz das redes sociais, tanto no que se refere às informações que você disponibiliza sobre si mesmo e das pessoas com quem convive, quanto aquilo que chega até você compartilhado por seus amigos.

Até o próximo post!


Referências

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. 31. ed. Petrópolis: Vozes, 2006.

SILVA, José Cláudio Sooma. Foucault e as relações de poder: O cotidiano da sociedade disciplinar tomado como uma categoria histórica. Aulas, UNICAMP, Campinas, São Paulo, n. 3, dez. 2006/mar. 2007. Disponível em: . Acesso em: 30/8/2013.

SILVA, Michele Czaikoski. Filosofia: Ensino Médio. Curitiba: Positivo, 2009. v. 4.