Estratificação social dos escravizados

Ao contrário do que muitos pensam, a escravidão no Brasil não se restringiu àqueles escravizados que circulavam em torno do senhor e da casa-grande, nas fazendas de  cana-de-açúcar, algodão e café. Ao longo dos séculos em que esse modo de produção esteve vigente em nosso país, os escravizados acabaram ocupando diferentes funções. Isso resultou num sistema de estratificação social que diversificava os seus membros em níveis de status de acordo com as exigências da divisão de trabalho. Diversificados nessa divisão, esses escravizados se articulavam internamente, mas apenas dentro do espaço social que lhes permitia a estrutura escravista.

Os escravizados se dividiam em:

- Escravos do eito e de atividades extrativas: aqueles que se dedicavam ao trabalho na agropecuária; às atividades extrativistas (borracha, algodão, fumo) e ao trabalho em agroindústrias, como nos engenhos de açúcar e no cultivo das lavouras de monocultura, como de algodão, fumo, café, cana-de-açúcar.

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Legenda: Representação de escravizados rurais, os chamados “escravos do eito”. RUGENDAS, Johann Moritz. Negro e Negra n’uma Fazenda. In: Viagem pitoresca através do Brasil. [ca 1835]. 1 reprodução de arte, litogravura s/ papel, color., 38,5 x 33 cm. Domínio Público.

- Escravos na mineração:  subdividiam-se em “escravos domésticos”, resignados ao cuidado com o lar; e os “escravos do eito”, destinados ao trabalho braçal nas minas de ouro ou diamantes.

- Escravos domésticos nas cidades ou casas-grandes: tratava-se dos escravizados caçadores; mucamas, amas de leite; cozinheiras, cocheiros; etc.

- Escravos de ganho nas cidades: esse grupo era formado pelos escravizados barbeiros; “médicos” (curandeiros); vendedores ambulantes; carregadores; músicos, prostitutas de ganho e escravos mendigos de ganho.

(Para saber mais sobre os escravos de ganho, domésticos e mineradores, clique aqui.)

Havia ainda outros tipos de escravizados, como os  de posse de conventos e igrejas, e escravos reprodutores.

A mobilidade social se dava apenas por meio das cartas de alforria, ou quando o escravizado se rebelava, fugindo para refugiar-se em comunidades próprias, como as comunidades quilombolas. Entretanto, embora a alforria assegurasse a liberdade de ir e vir e independência econômica, fazendo-o ultrapassar o “status de escravizado”, ela não garantia a esses indivíduos os mesmos direitos gozados pelos cidadãos que não possuíam passado escravo.

quilombo

Legenda: Representação de uma comunidade quilombola. RUGENDAS, Johann Moritz. Habitação de negros: semelhantes às de Palmares. In: Viagem pitoresca através do Brasil. [ca 1825]. 1 reprodução de arte, litogravura s/ papel, color., 51,3 x 35,5 cm. 

Embora alguns desses libertos até conseguissem acumular bens ao ponto de ter seus próprios escravizados, sob o ponto de vista político, a sua cidadania era limitada pela Constituição do Império, que estabelecia que os libertos não podiam ser eleitos deputados nem senadores à Assembleia Nacional e não teriam voto nas eleições, permanecendo na mesma condição cívica de estrangeiros.

De qualquer modo, seja no campo, ou na cidade, as relações sociais desenvolvidas pelos escravizados, entre eles mesmos e entre seus senhores, mostram-se mais complexas e profundas do que o senso comum nos revela. Isso reforça a necessidade do estudo das conjunturas históricas e sociológicas da escravidão no Brasil, como fatores imprescindíveis para a compreensão da nossa atual realidade social.

Por Jaqueline Santos


Referências

MOURA, Clóvis. Dicionário da escravidão negra no Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004.

PACINI, Paulo. O Cais dos mineiros. Disponível em: <http://www.jblog.com.br/rioantigo.php?itemid=16668>. Acesso em: 08/05/2013.

SILVA, Emilia M. f. da. Representações da sociedade escravista brasileira na viagem pitoresca e histórica ao Brasil, de Jean Baptiste Debret. Salvador: UFBA, 2001. Disponível em: <http://www.ppgh.ufba.br/IMG/pdf/Representacoes_da_Sociedade_Escravista_Brasileira_na_Viagem_Pitoresca_e_Historica_ao_Brasil.pdf>. Acesso em: 08/05/2013.

VAINFAS, Ronaldo (Org.). Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

VAINFAS, Ronaldo (Org.). Dicionário do Brasil Imperial (1822-1889). Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.