Guerra da Cisplatina – a rivalidade entre Brasil e Argentina para além do futebol

Conheça a história do primeiro conflito internacional brasileiro.

Em 10 de dezembro de 1825, o Brasil declarava guerra aos argentinos, isso porque “los hermanos” resolveram apoiar a independência da Cisplatina, região anexada por D. João VI, em 1816, ao império português.

Esse conflito, que perdurou por cerca de três anos, além de ter sido muito dispendioso, contribuiu para a impopularidade do Imperador D. Pedro I. Mas… espere aí! Se foi D. João VI quem anexou as terras, por que seu filho teve que arcar com as consequências? Antes da resposta, vamos aos fatos que deram origem ao acirramento entre argentinos e brasileiros.

A princípio, a região em questão denominava-se Banda Oriental, e os primeiros a estabelecerem-se no local foram os espanhóis, isso em 1527. No século seguinte, mais precisamente em 1680, os portugueses, desrespeitando o Tratado de Tordesilhas, invadiram as terras e fundaram uma cidade chamada Colônia do Santíssimo Sacramento, localizada praticamente na margem contrária a Buenos Aires.

Tratado de Tordesilhas

Tratado de Tordesilhas

Durante um período, portugueses e espanhóis coexistiram pacificamente, e outras cidades iam surgindo por iniciativa de ambos os ocupadores. Em 1723, os lusitanos foram expulsos das proximidades, sendo obrigados a deslocar-se mais para o norte, dando origem a cidades como Rio Grande e Porto Alegre. A fim de evitar uma nova investida por parte da Coroa Portuguesa, foi construída a Fortaleza de Montevidéu, que, além de servir como aquartelamento militar, tornou-se o mais importante entreposto comercial local.

Em 1777, o território foi concedido, mediante o Tratado de Santo Ildefonso, exclusivamente aos espanhóis. Entretanto, a região sofreu novas invasões, em 1798, 1806 e 1807, só que dessa vez a investida foi feita por tropas inglesas, que, contudo, logo foram expulsas pelos habitantes locais.

Com as guerras napoleônicas, a região voltou a ser palco de disputas, isso porque os franceses haviam destronado a dinastia Bourbon, na Espanha. Temendo que as colônias espanholas passassem para domínio de outras nações, a esposa de D. João VI, Carlota Joaquina de Bourbon, filha primogênita do rei espanhol deposto, quase convenceu seu esposo a ocupar a Banda Oriental, mas ele a conhecia melhor que ninguém e logo percebeu que poderia estar ajudando os espanhóis.

Ao mesmo tempo em que D. João VI intencionava aumentar território português, as colônias espanholas, motivadas pelo poderio francês sobre a Espanha, passaram a lutar por sua autonomia, estabelecendo, assim, alguns domínios autônomos. Em 1810, estourava a Revolução de Maio, que fez surgirem as Províncias Unidas do Rio da Prata, com administração em Buenos Aires. Esse movimento visava unir todas as colônias espanholas em um único país, inclusive a Banda Oriental, mas esta permaneceu fiel à Metrópole.

Como a região recusou ser anexada às Províncias Unidas, ocorreram vários combates, por ocasião do grande interesse que existia pela Banda Oriental. A esse tempo, existia na região uma pessoa muito importante: José Artigas, um rico fazendeiro que acabou se tornando líder da cidade de Montevidéu, e arredores, por ser um dos defensores da autonomia daquele território.

Estátua de José Artigas, na praça de Montevidéu. Crédito: Leandro Neumann Ciuffo. Licenciado por Creative Commons. Atribuição 2.0 Genérica.

Estátua de José Artigas, na praça de Montevidéu. Crédito: Leandro Neumann Ciuffo. Licenciado por Creative Commons. Atribuição 2.0 Genérica.

Para por seus ideais em prática, Artigas resolveu encurralar os portenhos (habitantes de Buenos Aires) e os espanhóis que haviam se fixado em Montevidéu. A fim de socorrer os sitiados, o governo português enviou para lá tropas militares. Os soldados lusitanos permaneceram na região por dois anos (1811-1812), e, ao que tudo indica, D. João VI só recuou por pressão dos ingleses.

Artigas continuava a ser uma pessoa influente e ainda desejava a independência da região. Mais alguns anos se passaram e ele chegou, inclusive, a rebatizar o território como Província Oriental, deixando, então, bem claro seus verdadeiros interesses.

Entretanto, em 1815, a dinastia Bourbon volta a ocupar o trono espanhol. Receoso de que as ex-colônias espanholas formassem um bloco político muito poderoso, D. João VI volta a ocupar a região em 1816. É claro que houve resistências, mas elas não foram suficientes para deter os portugueses, que chegaram a ocupar Montevidéu pacificamente. A missão de ocupar Montevidéu coube a Carlos Frederico Lecor, militar e nobre português. Artigas continuou a lutar com estratégias de guerrilha por mais três anos. Sem sucesso, exilou-se no Paraguai, onde morreu trinta anos depois.

Em 1821, pouco antes do retorno de D. João VI a Portugal, políticos importantes reúnem-se no Congresso Cisplatino para decidir o futuro da região: torná-la independente, ou anexá-la ao Brasil ou às Províncias Unidas do Rio da Prata (Argentina)?

A partir de 1821, o território passava a ser parte do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, com o nome de Província Cisplatina. No mesmo ano, D. João VI retorna a Portugal e deixa seu filho como Príncipe Regente do Brasil.

Com a proclamação da Independência do Brasil, em 1822, o exército português voltou ao seu país, levando consigo as tropas que faziam a segurança da Província Cisplatina. Com a ausência de uma força efetiva, surge novamente entre os habitantes da região o desejo de tornarem-se emancipados. Eles logo começaram a organizar-se e, em 1825, proclamaram sua independência.

Vale ressaltar que o desejo de autonomia não se deve exclusivamente a fatores políticos e econômicos, mas, sobretudo, culturais, pois, por mais que os portugueses tenham feito algumas investidas na região, a colonização espanhola assentou raízes mais firmes.

A luta pela independência da Província Cisplatina contou com o apoio dos argentinos, que contribuíram com armas, comida e soldados. Diante da atitude dos “hermanos”, D. Pedro I não hesitou em declarar guerra à Argentina.

Tropas a brasileiras a caminho de Montevidéu. Jean Baptiste Debret. Biblioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesa.

Tropas a brasileiras a caminho de Montevidéu. Jean Baptiste Debret. Biblioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesa.

Tendo em vista as dimensões do território brasileiro e a sua significativa vantagem populacional, a guerra parecia ser fácil e provavelmente teria um desfecho favorável ao Brasil, mas não foi o que ocorreu. A princípio, a estratégia militar do Imperador consistiu em bloquear os acessos da Bacia do Prata, mas essa missão tornou-se impossível de ser completada, uma vez que alguns rios da região não comportavam as embarcações brasileiras.

Em terra, os militares também não obtiveram sucesso, pois, como já foi mencionado, o exército teve que ser montado às pressas, e os únicos soldados com treinamento e experiência eram os portugueses, que haviam retornado à sua pátria. Para contornar essa situação, D. Pedro I precisou contratar mercenários alemães e irlandeses, que demoraram a chegar, devido a grande distância.

Depois de muitos combates, dos quais o mais famoso ficou conhecido como a Batalha do Passo do Rosário, o governo brasileiro reconheceu a sua derrota e, com a intermediação da Inglaterra, resolveu conceder a autonomia à região, que passou a ser denomina República Oriental do Uruguay. De acordo com a Convenção de Paz de 1828, ficou estabelecido:

Artigo 1. Sua Magestade o Imperador do Brazil Declara a Provincia de Montevideo, chamada hoje Cisplatina, separada do territorio do Imperio do Brazil, para que possa constituir-se em Estado livre e independente de toda e qualquer nação [...]. (Convenção de Paz de 1828)

Brasil e Argentina ainda travariam um outro conflito, mas deixemos este assunto para uma próxima oportunidade.

Por Fábio Voitechen