Investimentos com a Copa do Mundo no Brasil versus demandas sociais

 

Crédito: ©iStockphoto/Ig0rZh

Crédito: ©iStockphoto/Ig0rZh

 

Luis Lopes Diniz Filho, geógrafo econômico.

Duas características de países subdesenvolvidos são, entre outras, o alto nível de corrupção e a aplicação de recursos públicos segundo prioridades questionáveis do ponto de vista social. As polêmicas sobre a realização da Copa do Mundo no Brasil, 2014, e em outros países subdesenvolvidos, como África do Sul, realizada em 2010, reproduzem essa avaliação.

Despesa e arrecadação crescentes

No Brasil, a arrecadação de impostos e os gastos do Estado são altos, mas as demandas sociais, em saúde e educação, por exemplo, continuam grandes. Os novos direitos estabelecidos pela Constituição Brasileira de 1988 implicaram um forte aumento dos gastos do Estado (especialmente com a Previdência). De 1991 a 2006, os gastos subiram de 13,7% para 23,7% do PIB (Produto Interno Bruto). Assim, o Estado teve de cortar investimentos e aumentar a carga tributária, que passou de 25% do PIB, nos anos 1970-1980, para cerca de 36%, em 2007. Depois das crises econômicas internacionais de 2008 e 2012, os gastos realizados para aquecer a economia vêm fazendo com que o governo federal tenha dificuldade até para poupar o suficiente para garantir o pagamento das suas dívidas.

Os recursos usados para financiar as obras relacionadas à Copa saem de vários órgãos públicos, nos níveis municipal, estadual e federal, mas não são órgãos ligados à educação e à saúde. São o Ministério do Esporte, Secretarias Municipais e Estaduais de obras, e outras instituições do gênero. Uma vez decidido que o Brasil seria a sede dos jogos do segundo maior evento esportivo do mundo, os governos tiveram de incluir esses gastos, que antes não existiam, em seus orçamentos. Como os gastos já eram muito altos, foi necessário deixar de incluir outros investimentos e contrair dívidas.

Gastos com a Copa

O corte de investimentos estatais em infraestrutura contribui para reduzir o crescimento econômico nacional, que foi inferior ao crescimento dos outros países emergentes nos anos 2000. Assim, os gastos com a Copa poderiam se justificar se trouxessem um crescimento significativo do PIB. Mas a Copa dura um mês e os novos estádios criam despesas de manutenção sem que a maioria deles gere receita suficiente para pagá-las. E, apesar dos investimentos em estádios e na reforma de rodoviárias e de aeroportos, o crescimento foi fraco de 2012 até as vésperas do mundial.

Com o aumento da carga tributária ocorrido nas últimas décadas (desde o ano 2000), o brasileiro já paga em impostos, proporcionalmente, mais do que se paga em países desenvolvidos como EUA, Japão e Austrália, embora receba serviços públicos de qualidade inferior à dos serviços públicos ofertados nesses países. Exemplo: segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a taxa de leitos hospitalares do Brasil em 2012 era de 2,3 por mil habitantes, enquanto a Organização Mundial da Saúde recomenda uma taxa de 3 a 5 por mil habitantes. Os cerca de R$ 38 bilhões investidos com a Copa poderiam ter sido investidos na construção e/ou ampliação de hospitais, amenizando essa deficiência.

Conclusão

Os governos não reduzem seus gastos em política social por causa da Copa. Mas, como o total de gastos estatais com infraestrutura, educação e saúde, entre outros, já são muito altos e, mesmo assim, não atendem bem às demandas sociais, aumentar ainda mais os gastos para realizar a Copa é, no mínimo, questionável.

Fontes

SENE, E.; MOREIRA, J. C. O. Geografia geral e do Brasil: espaço geográfico e globalização. São Paulo: Scipione, 1998.

SENE, E.; MOREIRA, J. C. O. Geografia. 1. ed. São Paulo: Scipione, 2009.

VESENTINI, J. W. Geografia: geografia geral e do Brasil, volume único: livro do professor. 1. ed. São Paulo: Ática, 2005.

Fontes dos dados econômicos citados

GIAMBIAGI, F. Brasil, raízes do atraso: paternalismo x produtividade. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.

LANZANA, A. E. T.; LOPES, L. M. Economia brasileira: da estabilização ao crescimento. São Paulo: Atlas, 2009.