O Golpe Militar de 1964, nas palavras do cartunista Ziraldo

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Ziraldo tinha 31 anos quando Castello Branco assumiu a Presidência do país. O cartunista realizou um trabalho intenso de resistência à repressão do regime militar. Fundou, juntamente com outros humoristas, O Pasquim, provavelmente o mais importante jornal de oposição ao regime militar da história da imprensa brasileira.

O AI-5 (Ato Institucional n.º 5, decreto emitido pelo Poder Executivo que alterou a Constituição, bem como intensificou a repressão e a censura) foi editado em 13 de dezembro de 1968. Após a sua publicação, muitas pessoas contrárias ao regime procuraram esconder-se para escapar da prisão, e Ziraldo ajudou amigos que estavam sendo perseguidos. No dia seguinte ao da promulgação do Ato, Ziraldo, por ser considerado um “elemento perigoso”, foi preso em sua residência e levado para o -

Forte de Copacabana, onde permaneceu por pouco mais de dois meses.

A seguir, leia o que o cartunista tem para contar sobre esse episódio da nossa História.

O ideário militar

Os militares foram o primeiro segmento da sociedade que se organizou. Eles eram corporativistas e estudavam sua condição dentro da sociedade. Todas as ideias modernas do século XX entraram no Brasil por intermédio dos militares, já que eles eram alguns dos poucos neste país – até então muito atrasado – que tinham acesso à educação. Desde o positivismo e até o comunismo, tudo entrou no Brasil pelos quartéis. Isso deu aos militares brasileiros a ideia de que eles eram os tutores de nossa sociedade.

Toda vez que o Brasil precisava de uma mudança, lá estavam eles. Quem derrubou o Império e proclamou a República foram os militares. Eles assumiram o governo apoiados pela sociedade civil. Desde então, estabeleceu-se uma pseudodemocracia, pois, mesmo que tivéssemos eleições, elas sempre eram fraudadas. Mas eles deixavam os civis no poder. Quando achavam que estes não estavam dando conta do recado, davam um golpe, tiravam o presidente, colocavam outro em seu lugar e diziam para ele que fizesse “o serviço direito”. E isso se repetiu várias vezes, até que, em 1964, havia uma consciência bem recrudescida de que eles eram os melhores. Além disso, pairava no ar a “ameaça comunista“.

Entende-se que, até a Segunda Grande Guerra, os militares brasileiros eram influenciados pelos europeus. Após o conflito, a mentalidade estadunidense dominou os quartéis. Então, a “ameaça comunista” era, na verdade, uma forma de manutenção do regime capitalista.

Mas, após o Golpe de 1964, os militares julgaram que não deveriam devolver o poder aos civis. Entre eles, havia muita gente mandando. Mesmo com a entrada de Castello Branco, havia muitas pessoas de olho na presidência. Assim, em função da alternância do poder, eles conseguiram criar uma ditadura sem ditador. Um ditador só acabaria forçando um golpe dentro do golpe. Eles inventaram o “ditador de plantão”.

Quando o general Ernesto Geisel assumiu, já em 1974, os militares acabaram percebendo que a ordem do mundo ia mudar. A ditadura já havia ultrapassado seus limites, e eles viram que isso de ficar matando gente do mesmo sangue em função das lutas internas não era muito do feitio do brasileiro. Então, criaram a chamada “abertura“. E isso também aconteceu por causa da pressão da sociedade, por intermédio do pessoal de esquerda, dos guerrilheiros que morreram e de compositores, artistas, escritores, poetas e cartunistas: todos “enchiam a paciência” dos militares.

Saldo da ditadura

Os resultados da ditadura no País foram o aumento da corrupção, que acabou sendo institucionalizada, e o inchaço das cidades, que acarretou essa violência urbana que temos hoje.

Os jovens atualmente não têm muita ideia do que se passou naquele período ou, pelo menos, não conhecem a dimensão da coisa toda. Naquela época, os jovens se comoviam cantando “caminhando e cantando e seguindo a canção, somos todos iguais, braços dados ou não”. Agora é “tô nem aí, tô nem aí”. Mas a culpa não é da juventude. É o peso da história. Daqui a pouco, tudo pode mudar novamente.

Ziraldo