Os horrores da guerra química

As estratégias militares dos EUA envolvendo armas químicas durante a Guerra do Vietnã

A Guerra do Vietnã pode ser dividida em dois grandes momentos. O primeiro, um conflito em que as forças nacionalistas vietnamitas lutaram contra os colonialistas franceses (1946-1954), e o segundo, quando o governo comunista do Vietnã do Norte e seus aliados do Vietnã do Sul (conhecidos como vietcongues) lutaram contra o governo do Vietnã do Sul (1964-1975). Nesta guerra, o Sul teve os Estados Unidos como seu mais forte aliado.

A tática utilizada pelos vietcongues para vencer o Sul era a guerra de guerrilhas, facilitada pela natureza da região: a maior parte do sul do Vietnã era coberta por uma densa camada de florestas. Esse fator, ligado ao conhecimento que os vietcongues tinham da região, fez com que, mesmo dispondo de equipamentos inferiores, acabassem vencendo em diversos momentos os soldados estadunidenses.

Para reverter o quadro, os estrategistas militares dos EUA optaram por uma arma radical: o uso de herbicidas, agrotóxicos conhecidos com os nomes de agente rosa, azul, branco, verde ou laranja – este último, o mais utilizado. Essas substâncias tinham o poder de desfolhantes. Eram pulverizadas sobre as florestas do Vietnã, matando insetos, pássaros, macacos e desfolhando, não com muito sucesso, a região.

C-123, um dos aviões utilizados na operação Pink Rose e em outras missões de desfolhação. National Archives (342-B-VN-5-KKE-19010)

C-123, um dos aviões utilizados na operação Pink Rose e em outras missões de desfolhação. Foto: National Archives (342-B-VN-5-KKE-19010)

Na época, alertava-se que essas substâncias não causavam mal para animais ou seres humanos, porém havia um problema: durante sua fabricação, elas produziam uma toxina chamada dioxina. Esse composto, cancerígeno, causava uma série de problemas, entre eles danos no fígado e mutações genéticas.

Fogo

Em 1967, os EUA, para facilitarem o desflorestamento, testaram essas substâncias químicas com fogo em uma operação chamada de Pink Rose. Após pulverizarem uma grande área, lançaram bombas incendiárias. O que talvez não se sabia na época é que o fogo aumentava em 25% a toxicidade presente nos agentes químicos, causando danos que seriam irreversíveis tanto ao solo quanto aos seres vivos da região.

Durante o programa de testes Pink Rose, áreas alvo próximas a Tay Ninh e An Loc, no Vietnã, foram pulverizadas duas vezes com agentes desfolhantes. Depois o local foi alvo de bombas incendiárias. 01/1967. Foto: National Archives (NWDNS-342-C-KE24811)

Durante o programa de testes Pink Rose, áreas alvo próximas a Tay Ninh e An Loc, no Vietnã, foram pulverizadas duas vezes com agentes desfolhantes. Depois o local foi alvo de bombas incendiárias. 01/1967. Foto: National Archives (NWDNS-342-C-KE24811)

As consequências do uso dessas substâncias foram terríveis para todos os que tiveram contato com elas, inclusive os próprios soldados estadunidenses. Esses, durante as missões, eram algumas vezes encharcados com o composto, ou mesmo tinham contato com ele na comida que ingeriam e na água que bebiam. Os próprios pilotos de avião estavam sujeitos à intoxicação. O resultado pode ser visto em diversas queixas de veteranos da guerra que sofriam de tonturas, sangramento no nariz e na boca, problemas de pele além de violentas dores de cabeça. Mais tarde, alguns desenvolveram câncer. Os médicos do exército passaram anos sem relacionar esses sintomas à contaminação com o agente laranja.

Já para os vietnamitas, os problemas foram muito maiores. Além de sofrerem com florestas incendiadas, morte dos manguezais e dos peixes, água contaminada e solo tóxico, passaram a apresentar sintomas como fraqueza, vômitos, sangramento, entorpecimento das mãos e dos pés bem como enxaquecas. A partir de 1967, as mães passaram a abortar espontaneamente seus filhos ou dar à luz crianças que nasciam com hidrocefalia e deformações congênitas das mais diversas. Seus filhos estavam sendo alterados geneticamente graças à toxina que passava através da placenta. Apesar de médicos da região acreditarem que os problemas advinham do uso de pesticidas, demorou muito tempo para o governo vietnamita confirmar essa suposição.

Um helicóptero aplica um agente desfolhante na densa área florestada no delta do Rio Mekong - 26/07/1969. Foto: al Archives (NWDNS-111-C-CC59950)

Um helicóptero aplica um agente desfolhante na densa área florestada no delta do Rio Mekong - 26/07/1969. Foto: National Archives (NWDNS-111-C-CC59950)

O fim da guerra

Foi somente em 1970 que os EUA suspenderam o uso do agente laranja. Em 30 de abril de 1975, os vietnamitas do Norte invadiram Saigon, dando fim à longa guerra e obrigando os EUA a abandonarem a região, sem obterem a vitória. Além do uso de substâncias químicas, muitas outras atrocidades foram cometidas na região.

O saldo do conflito foi terrível: 58.135 estadunidenses mortos em combate; 304.704 feridos; e mais de 5 milhões de vietnamitas mortos ou feridos.

Foram utilizados mais de 20 milhões de galões de agentes químicos em cerca de três milhões de acres no sul do Vietnã. Cerca de 3 milhões de vietnamitas, entre eles 500 mil crianças, ainda sofrem os legados da guerra química.

Tanto gerações de vietnamitas quanto de estadunidenses cujos pais tiveram contato com a dioxina ainda apresentam mutações genéticas, mostrando que os tristes efeitos da guerra e de ações tomadas durante ela podem durar por décadas.

Por Priscila Pugsley Grahl de Miranda