Presos políticos finalmente libertos em Mianmar

Mianmar, antiga Birmânia, localiza-se no sul da Ásia e estava sofrendo forte pressão interna e externa para libertar seus presos políticos. Em 13 de janeiro de 2012, ela deu um grande passo, comemorado pelas agências que monitoram os direitos humanos no mundo: libertou mais de 650 homens e mulheres de suas prisões.

Você sabe o que é um preso político?

É qualquer pessoa presa ou em detenção por suas atividades políticas ou por suas opiniões contrárias às do governo estabelecido.

Agora, conheça mais sobre Mianmar e acompanhe como o país gerou tantos presos políticos, por meio de momentos de sua história.

Até 1989, a atual Mianmar chamava-se Birmânia. A mudança de nome ocorreu com a ascensão da junta militar ao poder.

Até 1989, a atual Mianmar chamava-se Birmânia. A mudança de nome ocorreu com a ascensão da junta militar ao poder.

Mianmar

Mianmar é um dos países mais pobres da Ásia, com um dos governos mais corruptos, e enfrenta diversas sanções econômicas ocidentais dos EUA, União Europeia e Canadá.

O país é rural, densamente florestado, e o maior importador de teca, uma espécie de madeira de excelente qualidade. Também está entre os grandes exportadores de heroína. No seu território, podem ser obtidos ouro, jade, rubis, safiras e pérolas. Também possui importantes depósitos de petróleo e gás. Mesmo cheio de riquezas, sua população é pobre e vive assolada por guerras civis internas entre etnias e o governo.

O dia 13 de janeiro de 2012, além destacar-se pela liberação dos prisioneiros, foi marcado por um acordo de cessar fogo entre a etnia Karen e o governo de Mianmar. O braço militar dessa etnia, a União Nacional Karen, chegou a dispor de 30 mil combatentes bem armados. Os conflitos entre os soldados da junta militar e a guerrilha geraram milhares de refugiados.

Mianmar é um país onde cerca de 90% da população segue o budismo e caracteriza-se como tipicamente rural. Foto: Greg Walters. Licenciado por CC BY 2.0.

Mianmar é um país onde cerca de 90% da população segue o budismo e caracteriza-se como tipicamente rural. Foto: Greg Walters. Licenciado por CC BY 2.0.

Mianmar é repleto de templos, um atrativo ao turismo. Porém, a renda da atividade turística não é revertida para a população em geral. Foto: McKay Savage. Licenciado por CC BY 2.0

Mianmar é repleto de templos, um atrativo ao turismo. Porém, a renda da atividade turística não é revertida para a população em geral. Foto: McKay Savage. Licenciado por CC BY 2.0

O país e seus presos políticos

O ano de 1988

Diversos personagens famosos da história de Mianmar foram libertos no dia 13. Entre eles, está Min Ko Naing, dirigente estudantil do movimento Geração 88. Para entendermos sua prisão, precisamos saber que de 1962 a 1988 a Birmânia viveu sob o regime comunista.

Em 1988, os birmaneses foram às ruas em diversas manifestações pedindo paz, reformas democráticas e eleições livres. Em setembro, o exército, que reprimiu as manifestações populares, deu um golpe de estado e tomou o poder no país. Durante esse período, aproximadamente 3 mil pessoas foram mortas, e milhares, encarceradas em prisões ou cárceres privados, com penas que podiam chegar a 65 anos de reclusão.

Em 1990, os militares convocaram eleições nacionais. Porém, os vencedores foram impedidos de assumir o poder. O país seguiria sob o comando militar por mais duros anos.

A Revolução de Açafrão

Cerca de 90% da população de Mianmar segue o budismo, e em 2007, foram os monges dessa religião que liderariam uma importante manifestação contra a junta militar.

Não é novidade na história da Birmânia a mobilização dos monges em causas políticas. Entre 1824 e 1886, a Birmânia foi colônia inglesa. Os monges tomaram vanguarda no movimento pela independência, assumindo uma postura de conflito contra os colonizadores. O que motivou primeiramente sua indignação foi a recusa dos ingleses de retirar os sapatos ao adentrar nos templos, um sinal de desrespeito.

Em 2007, eles aderiram novamente a causas políticas. Tudo começou em 15 de agosto, quando o governo anunciou um grande aumento dos combustíveis (que impactou transporte coletivo, gás de cozinha, bem como o preço dos gêneros alimentícios). Lesada em seu poder de compra, em 19 de agosto a população foi às ruas, e a repressão foi violenta, com diversos manifestantes presos. Os protestos espalharam-se rapidamente por outras cidades.

As manifestações, pacíficas, foram reprimidas com violência pelo governo, o que levou os monges a participarem das movimentações no final de agosto. A princípio, eles pediam que os militares se desculpassem com a população pela reação violenta. Com o tempo, mudaram o discurso, pedindo a saída da junta militar e o retorno a democracia.

Em 20 de setembro, como represália à participação dos monges, as autoridades fecharam o famoso Pagode de Schwegadon. Foto: Greg Walters. Licenciado por CC BY 2.0.

Em 20 de setembro, como represália à participação dos monges, as autoridades fecharam o famoso Pagode de Schwegadon. Foto: Greg Walters. Licenciado por CC BY 2.0.

Em 23 de setembro, aproximadamente 1.300 monges protestaram nas ruas de Yangon. No começo, o governo militar não reagiu de forma violenta à ação dos monges, mas em 26 de setembro passou a coibir as manifestações com bastões e uso de gás lacrimogênio. A violência contra a população civil e os religiosos continuou, com feridos, ao menos 13 mortos e milhares de presos.

Os protestos ficaram conhecidos como Revolução do Açafrão. Um dos líderes foi o monge Gambira, que foi preso na época e está na lista de libertos do dia 13.

Simpáticos à causa de Mianmar pedem o retorno à democracia no país em manifestação pública em Amsterdã (29 de setembro de 2007). No cartaz, a figura de Aung Sang Suu Kyi, símbolo da luta pacífica pela liberdade daquele país. Foto: Franz Patzig. Licenciado por CC BY 2.0.

Simpáticos à causa de Mianmar pedem o retorno à democracia no país em manifestação pública em Amsterdã (29 de setembro de 2007). No cartaz, a figura de Aung Sang Suu Kyi, símbolo da luta pacífica pela liberdade daquele país. Foto: Franz Patzig. Licenciado por CC BY 2.0.

O Ciclone Nargis

Se não bastassem os problemas internos, o país foi arrasado em 2008 pelo Ciclone Nargis, com um saldo de 138 mil mortos, milhares de feridos e sem-tetos.

O início dos ventos que arrasariam algumas regiões de Mianmar. Foto: Mohd Azmil Abdul Rahman. Licenciado por CC BY 2.0.

O início dos ventos que arrasariam algumas regiões de Mianmar. Foto: Mohd Azmil Abdul Rahman. Licenciado por CC BY 2.0.

Evento público pede democracia para Mianmar, conhecida no exterior com o nome de Burma.  Foto: Burma Democratic Concern (BDC). Licenciado por CC BY 2.0.

Evento público pede democracia para Mianmar, conhecida no exterior com o nome de Burma. Foto: Burma Democratic Concern (BDC). Licenciado por CC BY 2.0.

Eleições e a libertação dos presos políticos

Depois de mais de 20 anos sem eleições, em novembro de 2010, Mianmar elegeu novos parlamentares, passando a ter um governo civil, porém composto em grande parte por ex-militares. O novo governo, que assumiu em 2011, anunciou reformas democráticas, e a libertação dos presos estava entre elas.

O cumprimento dessa promessa em 2012 foi visto com bons olhos pelas organizações internacionais, que pensam, inclusive, dependendo da continuidade das ações positivas do governo, suspender as sanções econômicas que vigoram há anos contra o país.

Por Priscila Pugsley Grahl de Miranda