Terrorismo em Uganda

Entenda o que está por trás dos ataques de 11 de julho de 2010

Era final da Copa do Mundo de futebol. Em distintas partes do planeta, homens e mulheres, fãs do esporte, pararam em casa ou se dirigiram a lugares públicos para assistir ao jogo. Em Kampala, capital de Uganda, não foi diferente. As reuniões se deram em muitos cantos, entre eles, um restaurante etíope e um clube de rúgbi. Os que esperavam horas de alegria e descontração nunca imaginavam que, justamente ali, uma milícia terrorista conhecida como Al-Shabab já tinha planos: atentados suicidas sincronizados com o objetivo de matar o maior número de pessoas possível. Foram mais de 74 mortos e um número semelhante de feridos.

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A milícia Al-Shabab

Os homens que assumiram o atentado em Uganda vêm da Somália e seguem a cartilha da Al-Qaeda – organização terrorista responsável pelas ações do 11 de setembro nos EUA. Surgiram em 2006, visando estabelecer um estado islâmico somali e combater o Governo Nacional de Transição, instituição apoiada pela ONU para administrar esse país que, desde 1991, vive uma violenta guerra civil.

Para combater esse Governo, a milícia alista jovens sem trabalho, estudo ou futuro oferecendo um salário maior do que conseguiriam em qualquer outra atividade. Suas ações compreendem desde assassinatos, passando por atentados com granadas ou bombas improvisadas até tráfico ilegal de armas e outras mercadorias (todas ações condenadas pelo Islã). Também incluem a pirataria nos mares. Eles possuem várias bases terrestres no litoral somali e se aproveitam do trafego marítimo entre a Europa e o Oriente para atacar barcos cargueiros.

No final de 2009, a Al-Shabab já controlava o sul da Somália e parte central, porém, o que chocou os especialistas em terrorismo foi o inesperado ataque fora de suas fronteiras.

Somália

Soldados que participaram da campanha do exército americano na Somália, em 1992. Foto: John Martinez Pavliga. Licenciado por Creative Commons. Atribuição 2.0 Genérica.

Soldados que participaram da campanha do exército americano na Somália, em 1992. Foto: John Martinez Pavliga. Licenciado por Creative Commons. Atribuição 2.0 Genérica.

A Somália é um país desértico no nordeste da África. Tem uma língua comum e professa a religião islâmica, sendo historicamente composto de pastores que se dedicam a criar cabras, gado e camelos. Mesmo tendo tantas características em comum, a região não vive em paz. Os conflitos, antiquíssimos, estão relacionados a disputas por controle de recursos – como água e pastagens entre clãs e subclãs.

No auge do imperialismo, esse território já foi parte colônia britânica (Somalilândia), parte italiana (Somália Italiana). Após a independência, em 1960, a região foi unificada, porém, como diversos países africanos, caiu na mão de ditadores sanguinários que continuaram espoliando o país. Um deles foi Siad Barre, que dominou a região por 21 anos, alimentando os conflitos internos – entre clãs – e se envolvendo com externos – como com a Etiópia (1964-1988).

Em 1991, em consequência do fracasso da guerra contra a Etiópia, Siad foi destituído, gerando caos e guerra civil no país. A parte que foi colônia inglesa, Somalilândia, declarou independência – não reconhecida internacionalmente. Com o vazio de poder, inúmeros coronéis, com exércitos privados, passaram a disputar o controle das diversas regiões somalis. Para pagar seus soldados, saqueavam as populações vizinhas, levando o país ao caos e à fome.

De 1992 a 1994 os EUA e a ONU intervieram na região. Um dos episódios marcantes desse período ocorreu em Mogadíscio, a capital do país, onde em 2 de outubro de 1993 tropas americanas e somalis se enfrentaram. Dezoito americanos e mil somalis morreram em um episódio que Hollywood transformou no filme Falcão Negro em Perigo. Os conflitos continuaram no final do século XX e início do XXI, porém, mesmo com a  intervenção estrangeira, a paz não chegou e segue distante.

E onde entra Uganda?

Uganda, bem como outros países africanos (Burundi, Quênia e Etiópia), junto com EUA, Grã-Bretanha e França fazem ou fizeram parte da intervenção estrangeira na Somália, enviando tropas para lá. Como a Al-Shabab é a fonte atual das tensões, as tropas buscam combatê-la, dando à milícia o desejo de retaliação. Veja o pronunciamento de um de seus líderes, Yusuf Issa, logo após os atentados: “Uganda é um dos nossos inimigos”; “Qualquer coisa que os faça chorar nos faz felizes”.

Uma terra quase sem lei

Hoje ainda se encontram minas terrestres e tanques abandonados nas estradas da Somália. Foto: Carl Montgomery. Licenciado por Creative Commons. Atribuição 2.0 Genérica.

Hoje ainda se encontram minas terrestres e tanques abandonados nas estradas da Somália. Foto: Carl Montgomery. Licenciado por Creative Commons. Atribuição 2.0 Genérica.

A milícia tem feito pouco para melhorar a situação somali. A guerra civil que dura há quase 20 anos continua e suas consequências são terríveis. Entre as mais imediatas estão: a fome, milhares de feridos e um número gigantesco de refugiados. Estes já chegam a mais de um milhão. São homens, mulheres e crianças que, em jornadas perigosas, fogem e migram para campos no Quênia, no Iêmen e até na própria região separatista, a Somalilândia, que, por incrível que pareça, prospera e consegue se manter muito melhor do que a região da qual se dividiu. Também afeta as atividades econômicas tradicionais como o pastoreio e a agricultura.

Os somalis padecem com a falta de segurança, alimentação e serviços básicos. E do que sobrevive a população? Quem tem parentes espalhados pelo mundo vive com o dinheiro enviado por eles. São mais de um milhão de homens que partiram em uma diáspora que se iniciou na década de 1990 e que ainda segue.

Alguns especialistas em assuntos africanos definem a Somália como um estado falido. Para outros o atentado é um câncer que começou pequeno, na Somália, mas que agora está em metástase, ultrapassando suas fronteiras. Vamos esperar que as próximas medidas internacionais sejam mais efetivas e possam levar, além de ajuda humanitária, esperança e um futuro para um país que já cansou de sofrer.

Por Priscila Pugsley Grahl