Tiro com arco – uma prática antiga, um esporte novo

A utilização de um pedaço de madeira curva e flexível com uma corda de cipó amarrada em suas extremidades para arremessar setas a longas distâncias remete a tempos longínquos, mais precisamente, ao período Paleolítico (Idade da Pedra Lascada). Juntamente com o controle do fogo, a invenção da roda e, principalmente, a comunicação (linguagem), o arco colaborou para a sobrevivência da espécie humana, pois o hominídeo não era forte e tampouco ágil e veloz.

Com o surgimento das grandes civilizações, o arco e a flecha tornaram-se, além de utensílios para caça, armamentos militares. Os povos da Assíria, Babilônia, Grécia, Mongólia, Roma, Egito e Japão (onde a técnica se chamava kyudo) tinham como principal guarnição militar as tropas de arqueiros. Esse objeto foi sendo abandonado como armamento à medida que as armas de fogo eram aperfeiçoadas, a partir da invenção da pólvora. Mesmo assim, algumas tropas de elite ainda utilizam o arco, pois ele é muito preciso e absolutamente silencioso.

Na Idade Média, o instrumento evoluiu com a invenção do arco longo (longbow), que permitia ao atirador disparar com maior precisão e atingir alvos mais distantes. Nessa época, os nobres começaram a usar o arco e a flecha para atividades de competição, realizando festivais e torneios para que a nobreza pudesse mostrar suas habilidades em público. Na Inglaterra, até reis e rainhas — como o rei Henrique VIII, a rainha Elisabeth I e a rainha Vitória — participaram dessas competições. Henrique VIII ajudou a fundar, em 1537, o primeiro clube para nobres arqueiros, o Fraternity of St. George. O primeiro torneio ocorreu em 1583 em Finsbury, na Inglaterra, e contou com mais de 3 mil participantes. Nessa época, a destreza com o arco e a flecha era tão valorizada que a prática foi celebrada por meio de personagens da literatura como Robin Hood e Guilherme Tell.

Entretanto, essas práticas antigas não consistiam no esporte arco e flecha. Elas apenas serviram para o estabelecimento de uma tradição que seria, em meados do século XIX, usada para consolidar o novo esporte, com regras oficiais regidas por uma entidade regulamentadora, nos moldes do movimento esportivo de origem inglesa. Ao contrário do que se pensa, a nova modalidade não foi denominada “arco e flecha” e, sim, “tiro com arco”, nome que até hoje não é muito utilizado. A primeira competição oficial ocorreu em 1864, na Inglaterra, mas o esporte só foi regulamentado em âmbito mundial 60 anos depois. Em 1931, foi fundada a Fédération Internationale de Tir a l”Arc — Fita (Federação Internacional de Tiro com Arco).

Na segunda edição dos Jogos Olímpicos, em Paris (1900), o tiro com arco foi colocado no rol de modalidades olímpicas, mas sua inserção durou somente até 1920. A explicação para isso foi o fato de que ainda não existia uma federação para esse esporte e, por isso, não era possível unificar suas regras. Nos Jogos Olímpicos de Paris foi usada a regra francesa, que dividia a modalidade em várias provas: em uma delas, o arqueiro deveria acertar uma pequena bandeirola que ficava balançando ao vento; em outra, uma vara fincada ao solo; e a outra consistia em atingir o centro de um círculo feito de fibra trançada. Em St. Louis (1904) e Londres (1908), foi aplicada a regra americana, que além das provas individuais, incluía as por equipes. A modalidade ficou excluída de alguns Jogos Olímpicos e voltou a ser disputada na Antuérpia, em 1920, com as regras francesas. Ela permaneceu excluída até as Olimpíadas de Munique (1972), quando, depois de muito esforço de seus dirigentes para unificar as regras, a modalidade foi considerada esporte olímpico. A partir dessa edição, o tiro com arco passou a ser disputado em três categorias: individual masculino e feminino e por equipes, na prova de tiro de precisão contra o alvo redondo. As potências mundiais desse esporte são os EUA, que mantêm a hegemonia na categoria masculina, a Coréia do Sul, que domina a feminina, e a França, que sempre alcançou bons resultados nele.

Um dos momentos de destaque da modalidade aconteceu nas Olimpíadas de Barcelona, em 1992. Na cerimônia de abertura, um arqueiro arrematou uma seta flamejante em direção à pira olímpica, que, instantaneamente, acendeu-se, deixando estupefatos os milhões — talvez bilhões — de espectadores que acompanhavam a transmissão do evento. Mas, alguns dias depois, um cineasta amador divulgou imagens feitas de fora do estádio mostrando que a flecha não tinha acertado o alvo. No entanto, o que ficou na memória daqueles que assistiram ao evento foi a emoção da tocha sendo acessa.