Um cativeiro que durou 444 dias

Conheça o protesto de estudantes que se tornou um dos sequestros mais longos da história

Era 1.º de novembro de 1979. Estudantes iranianos protestavam em frente à embaixada dos EUA em Teerã, capital do Irã. O que era para ser uma manifestação acabou mudando de rumo. Eles invadiram a embaixada e fizeram reféns todas as pessoas que estavam lá. A demanda era clara: queriam a extradição* do xá deposto, Reza Pahlevi, na época vivendo nos EUA.

*Extradição: Entrega dum indivíduo, feita pelo governo do país onde ele se acha refugiado ao do país que o reclama, para ser julgado perante os tribunais deste ou cumprir a pena que lhe foi imposta (Dicionário Aurélio).

Carta escrita em 6 de novembro de 1979 na qual o presidente dos EUA, Jimmy Carter, pede ao aiatolá Khomeini a libertação dos cativos no Irã. Crédito: National Archives

Carta escrita em 6 de novembro de 1979 na qual o presidente dos EUA, Jimmy Carter, pede ao aiatolá Khomeini a libertação dos cativos no Irã. Crédito: National Archives

Quem era o xá deposto?

Xá era um antigo título dado aos soberanos do Irã. Reza Pahlevi foi o último deles antes da Revolução Islâmica que estabeleceu o governo dos aiatolás.

Ele esteve no poder de 1941 a 1978, período marcado pelas tentativas de modernização do país. Para isso se aproximou e muito do Ocidente, aprovando diversas reformas sociais e econômicas e permitindo também que tanto líderes quanto costumes ocidentais interferissem no país.

Enquanto a economia do Irã crescia, também cresciam a corrupção e a desigualdade social. Os insatisfeitos com o governo que ousassem se manifestar eram severamente reprimidos pela polícia política sendo presos, torturados e até enviados ao exílio.

Na alta sociedade, o monarca Pahlevi brilhava, vivendo como um playboy. Era famoso pelos gastos e pelas festas que atraíam soberanos de outros países e até astros de Hollywood.

Observe a aproximação do xá Reza Pahlevi com o Ocidente, principalmente com os EUA, a partir de fotos de diferentes períodos.

Truman, presidente dos EUA, com o xá do Irã, Reza Pahlevi, durante visita aos Estados Unidos em 18/11/1949. Foto: National Archives (NLT-AVC-PHT-(73)3151)

Truman, presidente dos EUA, com o xá do Irã, Reza Pahlevi, durante visita aos Estados Unidos em 18/11/1949. Foto: National Archives (NLT-AVC-PHT-(73)3151)

Eleanor Roosevelt e o xá em Teerã. 20/03/1959. Foto: National Archives (NLR-PHOCO-A-65202)

Eleanor Roosevelt e o xá em Teerã. 20/03/1959. Foto: National Archives (NLR-PHOCO-A-65202)

Na Casa Branca, o presidente dos EUA, Kennedy, se reúne com o xá Pahlevi e o secretário de defesa Robert McNamara. 13/04/1962. Foto: National Archives (NLK-WHP-KN-KNC21063)

Na Casa Branca, o presidente dos EUA, Kennedy, se reúne com o xá Pahlevi e o secretário de defesa Robert McNamara. 13/04/1962. Foto: National Archives (NLK-WHP-KN-KNC21063)

Presidente Nixon e o xá do Irã em 21/10/1969. Foto: National Archives (NLNP-WHPO-MPF-C2217(10))

Presidente Nixon e o xá do Irã em 21/10/1969. Foto: National Archives (NLNP-WHPO-MPF-C2217(10))

Presidente Jimmy Carter brinda junto com o xá do Irã em 31/12/1977. Foto: National Archives (NLC-WHSP-C-03795-6A)

Presidente Jimmy Carter brinda junto com o xá do Irã em 31/12/1977. Foto: National Archives (NLC-WHSP-C-03795-6A)

A queda do xá

No final de 1978, a situação no Irã era insustentável. Estudantes e trabalhadores, insatisfeitos com o governo, saíram às ruas em manifestações pacíficas ou violentas, pedindo mudanças. Iniciava-se uma revolução. Em janeiro de 1979, o xá partia para o exílio.

Em 1.º de fevereiro, regressava ao Irã um dos líderes e críticos do governo do xá, o aiatolá* Khomeini, que havia sido exilado do país, mais de uma década antes. Visto como um líder, Khomeini foi recebido com festa em seu regresso. Em dois meses ele proclamaria a República Islâmica. Seria seu líder durante décadas. A revolução que começou com caráter político tornou-se religiosa. O Irã passou a ser um estado teocrático, fundamentalista e regido pelas leis islâmicas.

*O título aiatolá é atribuído aos especialistas e intérpretes xiitas da lei islâmica.

Mural representando o aiatolá Khomeini, líder da Revolução Islâmica no Irã. Foto: Babeltravel. Licenciado por Creative Commons. Atribuição 2.0 Genérica.

Mural representando o aiatolá Khomeini, líder da Revolução Islâmica no Irã. Foto: Babeltravel. Licenciado por Creative Commons. Atribuição 2.0 Genérica.

O sequestro

Em poucos meses do governo Khomeini, os estudantes foram às ruas pedir a extradição de Reza Pahlevi, invadindo a embaixada dos EUA e fazendo 90 reféns. Cerca de 30 cativos, por serem mulheres ou não estadunidenses, foram libertados nos primeiros dias. Os demais seguiram presos, gerando uma crise internacional conhecida como Crise dos Reféns.

Os EUA, na época governados por Jimmy Carter, procuraram negociar diplomaticamente a libertação dos reféns, sem muito sucesso. Em abril de 1980, Carter tentou uma manobra para libertar os reféns, mandando militares e helicópteros para a região. Estes foram abatidos por uma tempestade no deserto e problemas mecânicos, levando a missão a ser abortada, com oito baixas. O fracasso na libertação é considerado um dos motivos da derrota na reeleição presidencial, deixando espaço livre para Ronald Reagan.

Na imagem você pode observar anotações do presidente Jimmy Carter na declaração sobre o fracasso da missão de resgate dos reféns nas quais ele toma a responsabilidade pelo ocorrido. 25/04/1980.

Na imagem você pode observar anotações do presidente Jimmy Carter na declaração sobre o fracasso da missão de resgate dos reféns nas quais ele toma a responsabilidade pelo ocorrido. 25/04/1980.

Em 27 de julho de 1980, o xá Reza Pahlevi morreria em exílio, no Egito. Mesmo assim, os reféns seguiram em cativeiro.

A ação só teve fim após 444 dias, em 20 de janeiro de 1981, data da posse de Ronald Reagan na presidência dos EUA. As negociações de libertação entre EUA e Irã até hoje permanecem em segredo.

O fim das relações

O sequestro pôs fim às relações diplomáticas entre EUA e Irã, gerando o fechamento das respectivas embaixadas e um estranhamento que ainda não foi resolvido.

No Irã, o dia 4 de novembro é festejado anualmente como o aniversário da invasão à embaixada dos Estados Unidos.

Veja abaixo algumas das diversas imagens de protesto pintadas nos muros da embaixada dos EUA em Teerã.

Foto: Shaun D Metcalfe. Licenciado por Creative Commons. Atribuição 2.0 Genérica.

Foto: Shaun D Metcalfe. Licenciado por Creative Commons. Atribuição 2.0 Genérica.

Foto: Shaun D Metcalfe. Licenciado por Creative Commons. Atribuição 2.0 Genérica.

Foto: Shaun D Metcalfe. Licenciado por Creative Commons. Atribuição 2.0 Genérica.

Por Priscila Pugsley Grahl